Dois grandes riscos ambientais precisam ser avaliados pelo seu potencial  como ofensores da qualidade de vida da população mundial e pela ameaça que representam à atividade econômica. Nos tópicos abaixo, vamos entender os riscos da exploração inadequada dos recursos naturais e de mudança climática.

3.3.1.1 Exaustão e Degradação dos Recursos Naturais

Em 2005, a ONU lançou o Millennium Ecosystem Assessment (ONU, 2005), uma pesquisa que envolveu 1.360 cientistas de 95 países, cuja conclusão foi que 60% dos ecossistemas responsáveis por regulação do clima, provisão de água potável, tratamento de resíduos, provisão de pescados, dentre outros já estavam degradados.

O Worldwatch Institute, uma organização de pesquisa americana dedicada a temas do desenvolvimento sustentável, publicou recentemente o relatório Estado do Mundo 2010 – Transformando Culturas: do consumismo à sustentabilidade. Em um de seus capítulos (ASSADOURIAN, E., 2010), somos informados que as pessoas no mundo todo consumiram em 2006, US$ 30,5 trilhões em bens e serviços, 28% a mais do que dez anos antes. Somente em 2008, foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhões de telefones celulares.

Para suportar este nível de consumo, entre 1950 e 2005, a produção de metais cresceu seis vezes, o consumo de petróleo subiu oito vezes e o de gás natural, 14 vezes. Atualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente – enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população. No total, 60 bilhões de toneladas de recursos naturais são extraídas anualmente, o que significa um acréscimo de 50 por cento na extração de 30 anos atrás.

Além de excessivo, o consumo é desigual. Em 2006, os 65 países com maior renda, em que o consumismo é dominante, foram responsáveis por 78% dos gastos mundiais em bens e serviços, mas contam com apenas 16% da população mundial. Somente os americanos, com 5% da população mundial, ficaram com uma fatia de 32% do consumo global. Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhões de pessoas. A pior notícia é que nem mesmo um padrão de consumo médio, equivalente ao de países como Tailândia ou Jordânia, seria suficiente para atender igualmente os atuais 6,8 bilhões de habitantes do planeta.

Nível de Consumo da População Mundial (ASSADOURIAN, E., 2010)

Figura 3.1 – Nível de Consumo da População Mundial (ASSADOURIAN, E., 2010)

O sucesso econômico dos países emergentes denominados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) é mais um fator que colabora com o uso desequilibrado dos recursos naturais. Estes países representam hoje quase 50% da população da Terra e a projeção de crescimento para eles em 2050 aponta para as primeiras posições da classificação de maiores PIBs do mundo.

Previsão dos dez maiores PIBs em 2050 (WBCSD, 2010)

Figura 3.2 – Previsão dos dez maiores PIBs em 2050 (WBCSD, 2010)

Mantido o padrão de consumo atual nos países ricos e dada a inclusão de parcelas extensas das populações dos BRICs no consumismo, a contribuição para a exaustão de recursos naturais será insuportável. Na projeção da OECD, 3,75 bilhões de pessoas estarão submetidas a severas restrições de água potável em 2030.

População com restrição de água potável (WBCSD, 2010)

Figura 3.3 – População com restrição de água potável (WBCSD, 2010)

O risco global representado pelo uso excessivo dos recursos naturais e pelo desperdício na geração de resíduos, efluentes e emissões atmosféricas será combatido com ações nos vários extratos sociais de diferentes países.

Podemos entender o tamanho do desafio representado pelo desenvolvimento sustentável quando fazemos a associação dos conceitos de índice de desenvolvimento humano (IDH) do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), com a pegada ecológica dos diversos países.

O IDH é mensurado levando-se em conta o PIB per capita, em dólar PPC (paridade do poder de compra, que elimina as diferenças de custo de vida entre os países), a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador utiliza números de expectativa de vida ao nascer. O item educação é avaliado pelo índice de analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino.

A pegada ecológica, no conceito utilizado pela Global Footprint Network (GFN), indica o tamanho da área de terra e água requerida pela população humana para produzir os recursos que consome e para absorver seus resíduos utilizando a tecnologia existente.

Um IDH de maior ou igual a 0,8 está associado aos países com elevado nível de desenvolvimento, enquanto o valor da pegada ecológica para a tecnologia atualmente disponível é de 2 ha/pessoa.

IDH e pegada ecológica (WBCSD, 2010)

Figura 3.4 – IDH e pegada ecológica (WBCSD, 2010)

Nos países à esquerda da linha vertical do IDH de 0,8 encontramos baixo nível de desenvolvimento humano. Aqueles países acima da linha horizontal de 2,0 ha/pessoa são caracterizados pelo seu desenvolvimento não sustentável. O retângulo azul representa o espaço ideal do desenvolvimento sustentável: elevado IDH e baixo impacto ambiental.

Para tornar o desenvolvimento sustentável possível, o WBCSD, em seu relatório Visão 2050 (WBCSD, 2010), identificou cinco mudanças necessárias:

  • Aceitar as vantagens e as restrições associadas com a possibilidade de compartilharmos um planeta com 9 bilhões de pessoas vivendo com boa qualidade de vida e dentro dos limites de recursos naturais impostos por este cenário;
  • Redefinir o significado de sucesso e progresso para países, empresas e pessoas;
  • Elevar a ecoeficiência para produzir maior bem-estar com menos recursos de nosso planeta;
  • Desenvolver soluções para reduzir o impacto ecológico dos países que estão acima do nível de utilização sustentável dos recursos naturais, mantendo elevado padrão de desenvolvimento humano;
  • Patrocinar a elevação do nível de desenvolvimento humano nos países de baixo IDH utilizando recursos naturais no limite da pegada ecológica.

As corporações que adotarem a responsabilidade social empresarial estarão aptas a responder mais rapidamente às oportunidades e ameaças deste cenário, colhendo os frutos da ecoeficiência que será valorizada na escassez de recursos e obtendo avaliações positivas de sua reputação junto a uma população sensibilizada com a potencial perda da qualidade de vida.

3.3.1.2 Mudanças Climáticas

A COP15, 15.ª Conferência das Partes, patrocinada pela ONU (UNFCC) e ocorrida entre os dias 7 e 18 de dezembro de 2009, produziu o Acordo de Copenhague que recebeu diversas críticas por não avançar significativamente no caminho do estabelecimento de metas de redução de gases de efeito estufa para os principais países emissores. No entanto, alguns de seus pontos serão importantes para apoiar os próximos passos da agenda ambiental (COP15, 2009):

  • Concordância que a estabilização da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera depende de um acréscimo da temperatura global inferior a 2°C. Além disso, é consenso que deve haver o apoio internacional para a adoção de um programa de adaptação abrangente para prevenir os impactos críticos da mudança climática;
  • Definição das responsabilidades pelo financiamento de curto e longo prazo dos países desenvolvidos para mitigação ou ações adaptativas dos impactos das mudanças climáticas em países em desenvolvimento. Serão destinados US$30 bilhões para essa finalidade no período de 2010 a 2012 e US$100 bilhões/ano até 2020.

O Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change) é o principal responsável por subsidiar a ONU (UNFCC) com informações científicas sobre este tema. O IPCC já elaborou quatro relatórios (1990, 1996, 2001 e 2007) e confirmou a existência de uma relação de causa e efeito entre as ações humanas e alterações climáticas. Somente no relatório de 2007, o IPCC coordenou os trabalhos de 450 cientistas de 130 países para sua elaboração. Outros 800 cientistas e 2.500 experts contribuíram com comentários de revisão.

O IPCC teve sua coordenação e sua capacidade de aferição da veracidade dos trabalhos científicos recentemente questionadas. Ban Ki-moon, o Secretário Geral das Nações Unidas, apesar de discordar que as conclusões dos relatórios tivessem sido comprometidas pelas falhas apontadas, determinou a realização de uma auditoria independente antes da divulgação dos próximos trabalhos. O IAC (InterAcademy Council), que é uma organização guarda-chuva composta por presidentes de 15 academias nacionais de ciência representando Argentina, Austrália, Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Japão, África do Sul, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos, vai conduzir esta auditoria para revisão de processos e procedimentos com o intuito de garantir a idoneidade e a qualidade dos próximos relatórios.

Apesar da polêmica sobre o quarto relatório do IPCC, novos estudos sobre mudança climática continuam sendo realizados. Em maio de 2009, o MIT (Massachusetts Institute of Technology), em seu modelo de estudo das mudanças climáticas (IGSM – Integrated Global System Modeling Framework), revisou a previsão para a temperatura média da Terra em 2100. O valor obtido no estudo foi de 5,1°C, mais do que o dobro do previsto em seu estudo de 2003.

A Organização Meteorológica Mundial (WMO, World Meteorological Organization), que coordena a observação dos gases do efeito estufa através de uma rede de estações em mais de 50 países, informou que as concentrações de gases que provocam o efeito estufa na atmosfera estão no maior nível já registrado e continuam aumentando. Segundo a WMO, essa tendência pode estar levando o mundo para os cenários mais pessimistas com relação ao aquecimento global nas próximas décadas, caso não haja uma ação urgente. Isso provocaria inundações, secas, degelo das calotas polares e outros problemas climáticos. O conteúdo de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera subiu ligeiramente mais rápido em 2008 do que ao longo da última década, quando a taxa de crescimento era de 1,93 parte por milhão (ao ano, nos últimos dez anos), tendo atingido 385,2 partes por milhão em 2008, um aumento de 2 partes por milhão em um ano, apresentando uma tendência de elevação na taxa de crescimento anual (WMO, 2009).

Evolução das emissões de CO2 (WMO, 2009)

Figura 3.5 – Evolução das emissões de CO2 (WMO, 2009)

De acordo com um estudo de Stephen Pacala, de Princeton, as 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo, que representam 7% da população, são responsáveis por 50% da emissão de gás carbônico, enquanto as 3 bilhões de pessoas mais pobres podem ser responsabilizadas por apenas 6% das emissões (ASSADOURIAN, E., 2010).

Esta mesma lógica se aplica aos países desenvolvidos representados pela OECD, aos emergentes (BRICs) e ao resto do mundo (WBCSD, 2010). Veja no gráfico abaixo que 70% das emissões previstas para 2050 virão dos países do OECD e BRICs.

Emissões por grupo de países (WBCSD, 2010)

Figura 3.6 – Emissões por grupo de países (WBCSD, 2010)

Grande parte do esforço de redução na emissão de gases de efeito estufa apresentado pelo Brasil na COP15 estava voltado ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Alguns setores como Agronegócio e Siderurgia receberam metas específicas (veja no tópico 3.3.2.1), porém com o crescimento previsto para o Brasil nos próximos anos e a conseqüente elevação de sua contribuição proporcional na emissão global de gases de efeito estufa, a cobrança internacional para ampliação de suas metas e a extensão delas para outros ramos industriais será intensa.

Uma organização que se pauta pela responsabilidade social empresarial deveria adotar o princípio da precaução no trato com as questões ambientais ligadas às mudanças climáticas. Segundo este princípio, onde há ameaças de dano sério ou irreversível, a falta de certeza científica completa não deveria ser usada como uma razão para adiar medidas eficazes para impedir a degradação ambiental (Princípio 15 da Declaração do Rio). Ao realizar avaliações sobre risco à saúde humana e ao ambiente, suposições conservadoras deveriam ser feitas para tratar de incertezas ou falta de dados (ISO26000-CD).

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