A responsabilidade social empresarial é a melhor estratégia corporativa para a ação e comunicação ambiental

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Elaboramos o blog Noviental para que ele seja um espaço de apresentação de idéias e discussão dos temas responsabilidade social empresarial, sustentabilidade, ecoeficiência e engajamento de stakeholders.

O conteúdo original desse blog é proveniente de dois anos e meio de estudos para a elaboração de uma monografia no MBA de Gestão e Tecnologia Ambientais da Escola Politécnica da USP (POLI-USP/PECE) cujo tema foi “A responsabilidade social empresarial como estratégia para execução e comunicação das ações ambientais relevantes às organizações e aos stakeholders”.

O que nos motivou a criar o blog Noviental foi a crença de que todos terão uma parcela de responsabilidade na implantação das ações que vão evitar os transtornos decorrentes da exaustão dos recursos naturais e das mudanças climáticas.

A sociedade deve contribuir apoiando a promoção de uma mudança cultural que valorize o consumo consciente e o desenvolvimento sustentável. As empresas devem buscar a responsabilidade social empresarial com o objetivo de alterar seus processos produtivos e adotar inovações tecnológicas para criar produtos de menor impacto ambiental sem causar escassez e perda de qualidade dos recursos naturais, respeitando a biodiversidade (ecoeficiência).

As mudanças climáticas e a necessidade de limitação no acréscimo da temperatura global motivarão o surgimento de regulamentações internacionais e legislações nacionais que vão afetar o modus operandi das empresas e o estilo de vida dos cidadãos, gerando forte pressão por mudança em suas atividades diárias.

Quais medidas devem ser tomadas pelas organizações para alterar seus processos de produção com o objetivo de reduzir suas contribuições à escassez de recursos naturais e à mudança climática? Quais são os riscos e os benefícios associados com um novo paradigma de processo produtivo voltado à maior eficiência na utilização de recursos naturais e redução de impactos ambientais? De que forma empresas e cidadãos podem colaborar entre si para que esses impactos sejam minimizados, respeitando os interesses dos envolvidos?

Em nossa opinião, as empresas que adotarem a responsabilidade social encontrarão nela as respostas para essas questões. A responsabilidade social empresarial (RSE) é a responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, a saúde e o bem estar da sociedade, levando em consideração as expectativas dos públicos de relacionamento (stakeholders).

A ISO 26000, publicada ao fim de 2010, é a norma mais abrangente de responsabilidade social empresarial (alguns autores utilizam os termos responsabilidade social corporativa, enquanto outros preferem responsabilidade socioambiental).

Utilizando a ISO 26000 como guia de RSE e as ISO 14001 e 14044 para gerenciar seus impactos ambientais, as organizações necessitam envolver as partes interessadas na gestão ambiental e no reporte de seus indicadores de desempenho. Estão disponíveis para tal finalidade a ISO 14063, que é dedicada à comunicação ambiental, a norma AA1000SES, aplicada ao engajamento de stakeholders e as diretrizes do GRI, que oferecem princípios e indicadores confiáveis para a elaboração de relatórios de sustentabilidade.

Neste trabalho, vamos estudar as orientações constantes daquelas normas, guias e diretrizes de RSE com o objetivo de formular uma estratégia de execução e comunicação de ações ambientais relevantes para as organizações e para seus stakeholders.

Estão todos convidados para explorar e interagir com o conteúdo do blog Noviental, lembrando que  a navegação pelas categorias no menu lateral direito ocorre como se fosse pelos capítulos da própria monografia.

Atenciosamente,

Eduardo Sandoval Perez

Eduardo Sandoval Perez

email: eduardo.sperez@uol.com.br

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* A lista de livros e links citados nos posts é encontrada ao fim de cada página desse blog.

Objetivos do blog Noviental

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Nosso estudo pretende investigar quais são os riscos de não adoção e quais são os benefícios ambientais para as organizações que adotam a responsabilidade social empresarial (RSE).

Com o objetivo de formular uma estratégia de execução e comunicação de ações ambientais relevantes para as organizações e para seus stakeholders, buscamos avaliar as prescrições sobre RSE constantes da bibliografia pesquisada e dos seguintes guias e padrões:

  1. ISO 26000 – norma de RSE da International Standard Organisation;
  2. ISO 14001 – sistema de gestão ambiental;
  3. ISO 14044 – análise do ciclo de vida de um produto ou serviço;
  4. ISO 14063 – comunicação ambiental para as partes interessadas;
  5. AA1000SES – norma de engajamento de stakeholders da Accountability ;
  6. Diretrizes para a elaboração de relatórios de sustentabilidade do Global Reporting Initiative (GRI);
  7. Orientações sobre meio ambiente da OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development);
  8. Diretrizes do WBCSD (World Business Council for Sustainable Development) para a busca da ecoeficiência.

As perguntas que buscamos responder com essa análise são as seguintes:

  • Quais os riscos incorridos pelas organizações indiferentes à responsabilidade social empresarial? Que benefícios ambientais podem ser auferidos pelas corporações que adotam a RSE?
  • A partir da análise da bibliografia pesquisada e dos guias e padrões de responsabilidade social empresarial, é possível depreender uma estratégia de ações ambientais que aprimore o nível de maturidade organizacional para o meio ambiente? Em caso positivo, qual seria essa estratégia?
  • Se existem recomendações estratégicas expressas nos guias e padrões de RSE para o engajamento dos stakeholders na comunicação ambiental, quais elas seriam?
  • Dada a característica interativa do processo de comunicação com os stakeholders, considerando a multiplicidade de ações e o caráter permanente delas, é possível  identificar um canal de comunicação preferencial para o envolvimento das partes interessadas? Em caso positivo, qual seria esse meio de comunicação e por quais motivos ele é preferencial?

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O que é a responsabilidade social empresarial (RSE)?

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Nossa vida e nosso sistema econômico serão intensamente impactados pela exaustão dos recursos naturais ao longo das próximas décadas. Cidadãos, empresas e governos sofrerão forte pressão por mudança em suas atividades diárias tendo em vista a escassez e a perda de qualidade dos principais recursos naturais (água, solo, ar e biodiversidade).

O impacto provocado pelo homem nas mudanças climáticas e a necessidade de limitação no acréscimo da temperatura global em até 2°C através da redução de emissão de gases efeito estufa foi um dos poucos consensos obtidos na COP15, a 15.ª Conferência das Partes, patrocinada pela ONU e ocorrida entre os dias 7 e 18 de dezembro de 2009, em Copenhague. A conseqüente evolução deste assunto vai provocar a criação de regulamentações internacionais e legislações nacionais que vão afetar o modus operandi das empresas e o estilo de vida dos cidadãos.

Todos terão uma parcela de responsabilidade na implantação das ações que vão evitar os transtornos decorrentes da exaustão dos recursos naturais e das mudanças climáticas. A sociedade deve contribuir apoiando a promoção de uma mudança cultural que valorize o consumo consciente e o desenvolvimento sustentável. As empresas devem buscar a responsabilidade social empresarial com o objetivo de alterar seus processos produtivos e adotar inovações tecnológicas para criar produtos de menor impacto ambiental utilizando menos recursos naturais (ecoeficiência).

Um de nossos enfoques neste estudo será apresentar às empresas quais práticas de responsabilidade social empresarial (RSE) podem ser adotadas para alcançar a ecoeficiência. Segundo a ISO 26000 (ISO26000, 2010), a RSE é definida como sendo a responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades sobre a sociedade e o meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente que:

  • Contribua para o desenvolvimento sustentável, a saúde e o bem-estar da sociedade;
  • Leve em consideração as expectativas das partes interessadas;
  • Esteja em conformidade com a legislação aplicável e seja consistente com normas internacionais de comportamento;
  • Seja integrado por toda a organização e seus relacionamentos.

A ISO 26000 estabelece quais temas centrais que uma organização deveria considerar para identificar e abordar a natureza de suas responsabilidades em relação à sociedade e ao meio ambiente:

  1. Governança Organizacional: conformidade com a legislação e regulamentações; reconhecimento dos direitos dos stakeholders; conduta ética; responsabilidade por ações (accountability) e transparência;
  2. Direitos Humanos: direitos civis e políticos; direitos econômicos, sociais e culturais; grupos vulneráveis e direitos fundamentais do trabalho;
  3. Práticas de Trabalho: emprego; direito dos trabalhadores; diálogo social; saúde e segurança ocupacional; desenvolvimento humano dos trabalhadores;
  4. Meio Ambiente: identificação e gerenciamento dos aspectos ambientais de atividades, produtos e serviços; promoção da sustentabilidade no consumo e na produção; uso sustentável de recursos; mudanças climáticas e serviços ecológicos;
  5. Práticas Leais de Operação: relacionamento com autoridades governamentais (incluindo combate à corrupção); concorrência e negociação justas; promoção da responsabilidade social;
  6. Questões relativas a Consumidores: práticas justas de negócios; marketing e informações; proteção à saúde e segurança do consumidor; mecanismos para “recall”; provisão e desenvolvimento de produtos e serviços ambiental e socialmente benéficos; serviço e suporte pós-fornecimento e resolução de disputas; privacidade e proteção aos dados do consumidor; acesso a produtos e serviços essenciais; educação e conscientização; consumo consciente;
  7. Envolvimento da Comunidade e Desenvolvimento Social: contribuição para o desenvolvimento social e econômico; envolvimento da comunidade (UNIETHOS, 2008).

Dada a abrangência do conceito de responsabilidade social empresarial, vamos abordar em nosso trabalho somente o tema central Meio Ambiente para identificar as ações ambientais que as organizações realizam em busca da ecoeficiência, utilizando-as como principal mensagem na comunicação ambiental e no diálogo com os stakeholders.

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A busca pela ecoeficiência é a mais importante contribuição da RSE ao desenvolvimento sustentável

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A busca pela ecoeficiência é a mais importante contribuição da responsabilidade social empresarial ao desenvolvimento sustentável. Vamos apresentar duas definições que julgamos mais adequadas para a ecoeficiência:

  1. A OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development) define-a como sendo a eficiência com a qual os recursos ecológicos são usados para atingir as necessidades humanas.
  2. O WBCSD (World Business Council for Sustainable Development) prega que a ecoeficiência deve ser alcançada pela entrega de bens e serviços com preços competitivos, que satisfaçam as necessidades humanas enquanto progressivamente reduzam os impactos ecológicos e a utilização de recursos naturais em todo o ciclo de vida, adequando-se à capacidade de carga de nosso planeta (WBCSD, 2006).

A adoção da RSE e a busca pela ecoeficiência provocam diversas mudanças organizacionais que vão resultar em inovações aplicadas em seus processos e produtos com a finalidade de:

  • Adotar um processo de produção mais limpa voltado à prevenção da poluição e à preservação e restauração dos recursos naturais degradados;
  • Estimular o desenvolvimento de novos produtos com bom desempenho ambiental;
  • Elevar investimentos em fontes renováveis de energia;
  • Monitorar sua performance ambiental através de sistemas de gestão ambiental e técnicas de gerenciamento do ciclo de vida (extração, fabricação, distribuição, consumo e descarte) dos produtos;
  • Promover a educação ambiental e os preceitos do consumo consciente junto aos públicos de relacionamento.

 

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O que é engajamento de stakeholders na responsabilidade social empresarial?

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As partes interessadas, que neste trabalho também serão denominadas indistintamente como públicos de relacionamento ou stakeholders, são todos aqueles indivíduos, grupos de indivíduos ou organizações que afetam ou podem ser afetados pelas atividades, produtos ou serviços da corporação.

O engajamento das partes interessadas é o compromisso de ser responsável para com aqueles que impactem ou que sejam impactados pela organização, permitindo que participem na identificação de problemas e contribuam para suas soluções.

Aceitar prestar contas perante seus stakeholders consiste em reconhecer e assumir com responsabilidade e transparência os impactos de políticas, decisões, ações, produtos e serviços da empresa, bem como dos resultados do desempenho organizacional. Obriga também que as partes interessadas sejam envolvidas na identificação e compreensão das preocupações em matéria de sustentabilidade, ficando a organização disponível para responder às partes interessadas em suas questões relevantes. Tudo isso é refletido na forma como uma organização define o seu modelo de governança, suas estratégias e sua gestão de desempenho ambiental (AA1000SES, 2010).

A premissa básica é que uma organização responsável atuará no sentido de:

  • Definir uma estratégia baseada na compreensão e na resposta abrangente e equilibrada em relação aos assuntos relevantes e às preocupações das partes interessadas;
  • Fixar objetivos e normas, segundo os quais a estratégia e o correspondente desempenho associado podem ser geridos e avaliados;
  • Divulgar informações críveis em relação a estratégias, objetivos, normas e desempenho junto daqueles que baseiam as suas ações e decisões nessas mesmas informações (AA1000SES, 2010).

O engajamento das partes interessadas pode tomar muitas formas, ser iniciado por uma organização ou representar uma resposta da empresa a uma reivindicação de seus públicos de relacionamento. Ele pode ocorrer em reuniões informais ou formais e pode seguir uma grande variedade de formatos tais como reuniões individuais, conferências, workshops, audiências públicas, discussões de mesa redonda, comitês consultivos, participação em fóruns, sociedades e em grupos de comunidade, inclusive em fóruns interativos na Internet (ISO26000).

 

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Fatores que incentivam a adoção da responsabilidade social empresarial

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Tendo em vista que as organizações que adotam a responsabilidade social empresarial tornam-se comprometidas com a promoção de ações ambientais ecoeficientes e ao mesmo tempo ficam empenhadas com o engajamento das partes interessadas, é um dos propósitos deste estudo investigar os fatores motivadores das práticas de RSE.

A adoção voluntária de um comportamento ético e socialmente responsável pela parcela do empresariado mais comprometida com esta mudança é um fator importante na disseminação da RSE entre empresários, mas sabemos que grande parte das organizações somente vai mudar antigos hábitos sob pressão.

A empresa Sustainability de consultoria estratégica lista em um artigo (KENDALL, G., 2008), quais são as dimensões que vão pressionar a mudança no mundo dos negócios:

  • Risco ambiental: A cadeia de suprimentos, as comunidades, os consumidores e as próprias plantas industriais sofrerão com a exaustão de recursos naturais e com outros impactos provocados pelas mudanças climáticas.
  • Risco regulatório e legal: Pressão oriunda da adoção de regulamentações internacionais (Pós Kyoto) e nacionais (Política de Meio Ambiente) que vão obrigar maior atuação ambientalmente responsável das empresas. Além deste tipo de regulamentação, incluímos neste tópico os riscos de não adoção da RSE contidos nas regras de aquisições de empresas e concessão de financiamentos orientados pelos princípios de investimento responsável (PRI -Principles for Responsible Investment) patrocinados pela ONU;
  • Risco tecnológico: Novos modelos de negócio e tecnologias surgirão de forma descontínua, rompendo com processos industriais estabelecidos em prol de outros mais ecoeficientes;
  • Risco à reputação: À medida que o consumidor torne-se mais consciente da associação entre práticas empresariais irresponsáveis e a poluição industrial, haverá risco à reputação daquelas empresas. Para companhias que se mostrarem proativas e buscarem a inovação no trato com o meio ambiente, haverá acréscimo de confiança na marca.

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Risco ambiental

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Dois grandes riscos ambientais precisam ser avaliados pelo seu potencial  como ofensores da qualidade de vida da população mundial e pela ameaça que representam à atividade econômica. Nos tópicos abaixo, vamos entender os riscos da exploração inadequada dos recursos naturais e de mudança climática.

3.3.1.1 Exaustão e Degradação dos Recursos Naturais

Em 2005, a ONU lançou o Millennium Ecosystem Assessment (ONU, 2005), uma pesquisa que envolveu 1.360 cientistas de 95 países, cuja conclusão foi que 60% dos ecossistemas responsáveis por regulação do clima, provisão de água potável, tratamento de resíduos, provisão de pescados, dentre outros já estavam degradados.

O Worldwatch Institute, uma organização de pesquisa americana dedicada a temas do desenvolvimento sustentável, publicou recentemente o relatório Estado do Mundo 2010 – Transformando Culturas: do consumismo à sustentabilidade. Em um de seus capítulos (ASSADOURIAN, E., 2010), somos informados que as pessoas no mundo todo consumiram em 2006, US$ 30,5 trilhões em bens e serviços, 28% a mais do que dez anos antes. Somente em 2008, foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhões de telefones celulares.

Para suportar este nível de consumo, entre 1950 e 2005, a produção de metais cresceu seis vezes, o consumo de petróleo subiu oito vezes e o de gás natural, 14 vezes. Atualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente – enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população. No total, 60 bilhões de toneladas de recursos naturais são extraídas anualmente, o que significa um acréscimo de 50 por cento na extração de 30 anos atrás.

Além de excessivo, o consumo é desigual. Em 2006, os 65 países com maior renda, em que o consumismo é dominante, foram responsáveis por 78% dos gastos mundiais em bens e serviços, mas contam com apenas 16% da população mundial. Somente os americanos, com 5% da população mundial, ficaram com uma fatia de 32% do consumo global. Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhões de pessoas. A pior notícia é que nem mesmo um padrão de consumo médio, equivalente ao de países como Tailândia ou Jordânia, seria suficiente para atender igualmente os atuais 6,8 bilhões de habitantes do planeta.

Nível de Consumo da População Mundial (ASSADOURIAN, E., 2010)

Figura 3.1 – Nível de Consumo da População Mundial (ASSADOURIAN, E., 2010)

O sucesso econômico dos países emergentes denominados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) é mais um fator que colabora com o uso desequilibrado dos recursos naturais. Estes países representam hoje quase 50% da população da Terra e a projeção de crescimento para eles em 2050 aponta para as primeiras posições da classificação de maiores PIBs do mundo.

Previsão dos dez maiores PIBs em 2050 (WBCSD, 2010)

Figura 3.2 – Previsão dos dez maiores PIBs em 2050 (WBCSD, 2010)

Mantido o padrão de consumo atual nos países ricos e dada a inclusão de parcelas extensas das populações dos BRICs no consumismo, a contribuição para a exaustão de recursos naturais será insuportável. Na projeção da OECD, 3,75 bilhões de pessoas estarão submetidas a severas restrições de água potável em 2030.

População com restrição de água potável (WBCSD, 2010)

Figura 3.3 – População com restrição de água potável (WBCSD, 2010)

O risco global representado pelo uso excessivo dos recursos naturais e pelo desperdício na geração de resíduos, efluentes e emissões atmosféricas será combatido com ações nos vários extratos sociais de diferentes países.

Podemos entender o tamanho do desafio representado pelo desenvolvimento sustentável quando fazemos a associação dos conceitos de índice de desenvolvimento humano (IDH) do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), com a pegada ecológica dos diversos países.

O IDH é mensurado levando-se em conta o PIB per capita, em dólar PPC (paridade do poder de compra, que elimina as diferenças de custo de vida entre os países), a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador utiliza números de expectativa de vida ao nascer. O item educação é avaliado pelo índice de analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino.

A pegada ecológica, no conceito utilizado pela Global Footprint Network (GFN), indica o tamanho da área de terra e água requerida pela população humana para produzir os recursos que consome e para absorver seus resíduos utilizando a tecnologia existente.

Um IDH de maior ou igual a 0,8 está associado aos países com elevado nível de desenvolvimento, enquanto o valor da pegada ecológica para a tecnologia atualmente disponível é de 2 ha/pessoa.

IDH e pegada ecológica (WBCSD, 2010)

Figura 3.4 – IDH e pegada ecológica (WBCSD, 2010)

Nos países à esquerda da linha vertical do IDH de 0,8 encontramos baixo nível de desenvolvimento humano. Aqueles países acima da linha horizontal de 2,0 ha/pessoa são caracterizados pelo seu desenvolvimento não sustentável. O retângulo azul representa o espaço ideal do desenvolvimento sustentável: elevado IDH e baixo impacto ambiental.

Para tornar o desenvolvimento sustentável possível, o WBCSD, em seu relatório Visão 2050 (WBCSD, 2010), identificou cinco mudanças necessárias:

  • Aceitar as vantagens e as restrições associadas com a possibilidade de compartilharmos um planeta com 9 bilhões de pessoas vivendo com boa qualidade de vida e dentro dos limites de recursos naturais impostos por este cenário;
  • Redefinir o significado de sucesso e progresso para países, empresas e pessoas;
  • Elevar a ecoeficiência para produzir maior bem-estar com menos recursos de nosso planeta;
  • Desenvolver soluções para reduzir o impacto ecológico dos países que estão acima do nível de utilização sustentável dos recursos naturais, mantendo elevado padrão de desenvolvimento humano;
  • Patrocinar a elevação do nível de desenvolvimento humano nos países de baixo IDH utilizando recursos naturais no limite da pegada ecológica.

As corporações que adotarem a responsabilidade social empresarial estarão aptas a responder mais rapidamente às oportunidades e ameaças deste cenário, colhendo os frutos da ecoeficiência que será valorizada na escassez de recursos e obtendo avaliações positivas de sua reputação junto a uma população sensibilizada com a potencial perda da qualidade de vida.

3.3.1.2 Mudanças Climáticas

A COP15, 15.ª Conferência das Partes, patrocinada pela ONU (UNFCC) e ocorrida entre os dias 7 e 18 de dezembro de 2009, produziu o Acordo de Copenhague que recebeu diversas críticas por não avançar significativamente no caminho do estabelecimento de metas de redução de gases de efeito estufa para os principais países emissores. No entanto, alguns de seus pontos serão importantes para apoiar os próximos passos da agenda ambiental (COP15, 2009):

  • Concordância que a estabilização da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera depende de um acréscimo da temperatura global inferior a 2°C. Além disso, é consenso que deve haver o apoio internacional para a adoção de um programa de adaptação abrangente para prevenir os impactos críticos da mudança climática;
  • Definição das responsabilidades pelo financiamento de curto e longo prazo dos países desenvolvidos para mitigação ou ações adaptativas dos impactos das mudanças climáticas em países em desenvolvimento. Serão destinados US$30 bilhões para essa finalidade no período de 2010 a 2012 e US$100 bilhões/ano até 2020.

O Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change) é o principal responsável por subsidiar a ONU (UNFCC) com informações científicas sobre este tema. O IPCC já elaborou quatro relatórios (1990, 1996, 2001 e 2007) e confirmou a existência de uma relação de causa e efeito entre as ações humanas e alterações climáticas. Somente no relatório de 2007, o IPCC coordenou os trabalhos de 450 cientistas de 130 países para sua elaboração. Outros 800 cientistas e 2.500 experts contribuíram com comentários de revisão.

O IPCC teve sua coordenação e sua capacidade de aferição da veracidade dos trabalhos científicos recentemente questionadas. Ban Ki-moon, o Secretário Geral das Nações Unidas, apesar de discordar que as conclusões dos relatórios tivessem sido comprometidas pelas falhas apontadas, determinou a realização de uma auditoria independente antes da divulgação dos próximos trabalhos. O IAC (InterAcademy Council), que é uma organização guarda-chuva composta por presidentes de 15 academias nacionais de ciência representando Argentina, Austrália, Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Japão, África do Sul, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos, vai conduzir esta auditoria para revisão de processos e procedimentos com o intuito de garantir a idoneidade e a qualidade dos próximos relatórios.

Apesar da polêmica sobre o quarto relatório do IPCC, novos estudos sobre mudança climática continuam sendo realizados. Em maio de 2009, o MIT (Massachusetts Institute of Technology), em seu modelo de estudo das mudanças climáticas (IGSM – Integrated Global System Modeling Framework), revisou a previsão para a temperatura média da Terra em 2100. O valor obtido no estudo foi de 5,1°C, mais do que o dobro do previsto em seu estudo de 2003.

A Organização Meteorológica Mundial (WMO, World Meteorological Organization), que coordena a observação dos gases do efeito estufa através de uma rede de estações em mais de 50 países, informou que as concentrações de gases que provocam o efeito estufa na atmosfera estão no maior nível já registrado e continuam aumentando. Segundo a WMO, essa tendência pode estar levando o mundo para os cenários mais pessimistas com relação ao aquecimento global nas próximas décadas, caso não haja uma ação urgente. Isso provocaria inundações, secas, degelo das calotas polares e outros problemas climáticos. O conteúdo de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera subiu ligeiramente mais rápido em 2008 do que ao longo da última década, quando a taxa de crescimento era de 1,93 parte por milhão (ao ano, nos últimos dez anos), tendo atingido 385,2 partes por milhão em 2008, um aumento de 2 partes por milhão em um ano, apresentando uma tendência de elevação na taxa de crescimento anual (WMO, 2009).

Evolução das emissões de CO2 (WMO, 2009)

Figura 3.5 – Evolução das emissões de CO2 (WMO, 2009)

De acordo com um estudo de Stephen Pacala, de Princeton, as 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo, que representam 7% da população, são responsáveis por 50% da emissão de gás carbônico, enquanto as 3 bilhões de pessoas mais pobres podem ser responsabilizadas por apenas 6% das emissões (ASSADOURIAN, E., 2010).

Esta mesma lógica se aplica aos países desenvolvidos representados pela OECD, aos emergentes (BRICs) e ao resto do mundo (WBCSD, 2010). Veja no gráfico abaixo que 70% das emissões previstas para 2050 virão dos países do OECD e BRICs.

Emissões por grupo de países (WBCSD, 2010)

Figura 3.6 – Emissões por grupo de países (WBCSD, 2010)

Grande parte do esforço de redução na emissão de gases de efeito estufa apresentado pelo Brasil na COP15 estava voltado ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Alguns setores como Agronegócio e Siderurgia receberam metas específicas (veja no tópico 3.3.2.1), porém com o crescimento previsto para o Brasil nos próximos anos e a conseqüente elevação de sua contribuição proporcional na emissão global de gases de efeito estufa, a cobrança internacional para ampliação de suas metas e a extensão delas para outros ramos industriais será intensa.

Uma organização que se pauta pela responsabilidade social empresarial deveria adotar o princípio da precaução no trato com as questões ambientais ligadas às mudanças climáticas. Segundo este princípio, onde há ameaças de dano sério ou irreversível, a falta de certeza científica completa não deveria ser usada como uma razão para adiar medidas eficazes para impedir a degradação ambiental (Princípio 15 da Declaração do Rio). Ao realizar avaliações sobre risco à saúde humana e ao ambiente, suposições conservadoras deveriam ser feitas para tratar de incertezas ou falta de dados (ISO26000-CD).

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