Em um artigo onde procura avaliar os diferentes cenários de aplicação das principais estratégias ambientais, René van Berkel (van BERKEL, 2006b) promove uma classificação em quatro eixos distintos. Veja, na figura abaixo, como ficaram agrupadas as principais ações ambientais de acordo com:

  • A descarga de poluentes em compartimento único (uma empresa) ou em múltiplas empresas (no ciclo de vida ou na ecologia industrial);
  • A ação reativa ou preventiva quanto à poluição;
  • O foco organizacional ou sistêmico;
  • A motivação baseada em obrigações legais ou na voluntariedade da responsabilidade social empresarial.

Estratégias de ações ambientais em van Berkel

Figura 4.1 – Estratégias de ações ambientais em van Berkel (van BERKEL, 2006b)

Observem que os círculos e polígonos que definem as ações ambientais estratégicas apresentam interseções entre si. Isso ocorre por que as estratégias nominadas compartilham requisitos conceituais entre si ou mesmo por que houve uma evolução do conceito inicial a partir de sua aplicação ao longo do tempo e em regiões geográficas diferentes. Alguns exemplos são citados no artigo:

  • O termo minimização de resíduos foi originalmente cunhado pelo ato RCR (Resource Conservation and Recovery), de 1984, nos EUA. Originalmente, ele propunha a redução de resíduos em sua fonte geradora, através de mudanças nos processos industriais e também por meio da reciclagem. Nos anos 1990, o Reino Unido começou a utilizar esse termo para designar também a redução de perdas no uso de recursos naturais no processo produtivo, aproximando-se do conceito de produção mais limpa;
  • O conceito de prevenção da poluição está claramente definido no Pollution Prevention Act, de 1990, nos EUA. As plantas industriais eram obrigadas a reportar como iriam prevenir a liberação das substâncias tóxicas listadas num inventário referenciado pela lei, que estimulava fortemente a minimização de geração de resíduos e seu reúso no processo produtivo. Atualmente, esse conceito também engloba o uso eficiente de materiais, energia, água e outros recursos naturais, aproximando-o da ecoeficiência;
  • Tecnologia limpa e produção mais limpa são termos intercambiáveis em diversos países, apesar de que o primeiro termo define as soluções tecnológicas cuja aplicação permite a redução do uso de recursos naturais e da geração de resíduos, enquanto a segunda definição diz respeito à estratégia de produção limpa sistematicamente aplicada para aumentar eficiência e reduzir riscos à saúde e ao meio ambiente;
  • DfE (Design for Environment), ecodesign e design no ciclo de vida são sinônimos e podem ser considerados como a aplicação da ecoeficiência no projeto de um produto ao considerar os fatores ambientais em todos os estágios do seu ciclo de vida com o objetivo de reduzir seus impactos, ampliar sua reutilização e estender sua durabilidade;
  • Ecologia industrial promove o acoplamento dos processos produtivos de indústrias diversas visando à troca física de materiais, energia, água, co-produtos e resíduos para obter vantagem competitiva. O ecodesign é parte importante nessa iniciativa, pois ela está baseada na máxima utilização de produtos e serviços projetados para reúso.

O controle da poluição geralmente é a primeira iniciativa empresarial voltada ao meio ambiente por conta da existência de rigorosa legislação em alguns setores industriais onde são estabelecidos os limites para a geração de resíduos, descarga de efluentes e emissões atmosféricas.

A aplicação da melhor tecnologia disponível (do inglês BAT, Best Available Technology) para controle da poluição pode ser requerida para que a organização esteja adequada aos padrões da legislação, exigindo por vezes investimentos expressivos nas instalações industriais.

As atividades de gerenciamento aplicadas aos resíduos sólidos, aos efluentes e às emissões atmosféricas possuem similaridade entre si. Inicialmente, é realizado o levantamento dos pontos do processo onde eles são gerados para em seguida promover a identificação dos poluentes em um inventário; efetuar sua classificação, segregação e armazenamento de acordo com sua periculosidade; aplicar a eles o tratamento adequado e liberá-los no meio ambiente nos padrões da legislação, dispondo-os nas destinações recomendadas de acordo com sua classificação. Vejam as atividades detalhadas em cada ciclo de gerenciamento de resíduos:

 

Gerenciamento de resíduos, efluentes e emissões

Tabela 4.1 – Gerenciamento de resíduos, efluentes e emissões (adaptado de SOTTO MAYOR, L. B. F., 2009; MIERZWA, J. C. e HESPANHOL, I., 2005)

Quando a organização não aplica o gerenciamento de resíduos, ela pode se ver obrigada a recuperar uma área cujo solo ou águas subterrâneas estejam contaminadas por poluentes. Nessas situações, além dos custos pecuniários embutidos no pagamento de multas por infringir a legislação aplicável à geração dos resíduos fora de padrão, a empresa pode ter que incorrer em pesadíssimos investimentos para remediação da área contaminada, executando as seguintes atividades (ROCCA, A. C. C. e CASTRO NETO, P. P., 2009):

  • Investigação detalhada sobre a contaminação de uma área através de caracterização geológica, hidrogeológica, geoquímica ou hidroquímica
  • Remediação de área contaminada com o objetivo de diminuir a periculosidade ou o nível de toxicidade dos contaminantes presentes na área utilizando reações que neutralizem ou decomponham esses compostos. Para tal, as técnicas mais utilizadas são:
    • Contenção – imposição de barreiras físicas ou hidráulicas para evitar dispersão;
    • Biorremediação – utilização de microrganismos de ocorrência natural para biodegradar substâncias perigosas;
    • Lavagem do solo in situ – aplicação de um líquido no solo para remoção dos poluentes por processos físicos e químicos ocorridos durante a percolação;
    • Extração de vapor – utilizada para remediação de contaminantes voláteis e é realizada através da aplicação de vácuo ou injeção de ar por intermédio de tubos ou poços introduzidos no solo contaminado;
    • Extração e tratamento de águas subterrâneas – destinado à remoção de água subterrânea contaminada, utilizando poços de bombeamento estabelecidos após estudo e modelagem do escoamento e do transporte do poluente;
    • Remoção do solo – remoção e destinação adequadas de solos contaminados para incineração, aterro ou tratamento.

Para a reciclagem ou o reúso de resíduos, estamos utilizando a definição que consta da Lei N.o 12.300, de 16 de março de 2006 que diferencia ambos os conceitos pelo fato de que, na reciclagem, o resíduo é reutilizado após alterações de suas características físico-químicas em um tratamento e no reúso a reutilização ocorre sem a necessidade de tratar o resíduo.

O reúso é normalmente preferível à reciclagem porque a reutilização do resíduo ocorre sem o dispêndio de energia, materiais e dinheiro investidos no tratamento. A reciclagem beneficia o meio ambiente por reduzir o uso de recursos naturais e a geração de resíduo.

Devido às características associadas ao conceito de prevenção da poluição, em nosso trabalho estamos incorporando a ele o significado dos termos minimização de resíduos, redução de uso de substância tóxica e uso de tecnologias limpas.

A prevenção da poluição é definida pela USEPA (United States Environmental Protection Agency) como sendo a prevenção ou eliminação de desperdícios pela modificação do processo de produção, promovendo o uso de substâncias não tóxicas ou menos tóxicas, implementação de técnicas de conservação e reutilização de materiais (USEPA, 2010). Como sequência de ações ambientais preferíveis, a USEPA sugere a seguinte abordagem:

  • A poluição seja evitada ou reduzida em sua origem sempre que possível;
  • A poluição que não possa ser evitada deve ser reciclada adequadamente e de forma segura;
  • A poluição que não possa ser evitada ou reciclada deve ser tratada adequadamente e de forma segura;
  • A disposição final de resíduos ou sua liberação para o meio ambiente somente deverá ocorrer como último recurso e deve ser feita da maneira ambientalmente mais adequada e segura.

Higgins (HIGGINS, T. E., 1995) defende que as categorias aplicáveis à prevenção da poluição são:

  • Modificações no processo produtivo;
  • Substituição de matéria-prima;
  • Melhoria de procedimentos operacionais e gerenciais (housekeeping);
  • Reciclagem e reúso;
  • Gerenciamento de resíduos;
  • Aplicação de tratamento para redução de descargas de resíduos.

Como a prevenção da poluição, a produção mais limpa e a ecoeficiência são conceitos que englobam as principais ações estratégicas recomendadas pelos guias e padrões de RSE, procuramos apresentar uma distinção clara entre eles.

No artigo de René van Berkel (van BERKEL, 2006b), ele propõe que, apesar de fazerem parte da estratégia preventiva, a produção mais limpa e a ecoeficiência vão além da definição conceitual de prevenção da poluição, pois este último conceito não incorpora a conservação de recursos naturais, energia e materiais, além de que ele não reforça o ganho ambiental representado pela abordagem de produto como serviço. Ainda segundo o mesmo autor, enquanto a produção mais limpa está associada com os meios (processos e tecnologias) envolvidos na melhoria do desempenho ambiental, a ecoeficiência lida com os objetivos a se atingir nesse caminho.

As cinco práticas de prevenção que melhor definem a produção mais limpa (van BERKEL, 2006b) são:

  • Substituições de entradas do processo produtivo por materiais e recursos naturais que causem menor impacto ambiental;
  • Modificações tecnológicas que otimizem o uso de recursos naturais e reduzam danos ambientais causados pelo processo produtivo através de automação, otimização ou substituição de processos ou equipamentos;
  • Mudanças em processos e procedimentos operacionais para eliminar geração de resíduos (housekeeping);
  • Reciclagem e reúso de materiais nos processos produtivos da própria organização;
  • Modificações no formato e na composição material do produto com a finalidade de estender sua durabilidade, elevar sua reutilização em novo processo produtivo ou torná-lo menos poluente.

O WBCSD (WBCSD, 2006) aponta a ecoeficiência como principal estratégia das organizações para o meio ambiente, pois em sua implementação devemos utilizar poderosas ferramentas ambientais:

  • Análise do ciclo de vida – técnica para tomada de decisão que otimiza a ecoeficiência porque são mapeados o uso de material, de energia e a geração de resíduos, efluentes e emissões atmosféricas nos processos de extração de matéria-prima, manufatura, transporte, uso e disposição final dos produtos e serviços;
  • Produção mais limpa – aplicação contínua de uma estratégia de prevenção da poluição nos processos, produtos e serviços da organização buscando reduzir riscos ambientais e à saúde humana, operacionalizando a ecoeficiência ao conservar recursos naturais e energia, eliminar uso de substâncias tóxicas e reduzindo geração de resíduos;
  • Ecodesign (design for environment) – quando se projeta um produto e serviço levando-se em consideração requisitos ambientais, procura-se pensar em menor utilização de recursos naturais em seu processo produtivo e no reúso de seus componentes constitutivos após a disposição final;
  • Cadeia de suprimentos ambientalmente adequada – a organização promove a ecoeficiência em sua cadeia de fornecedores e distribuidores adquirindo produtos e serviços de menor impacto ambiental em seu ciclo de vida;
  • Sistema de gestão ambiental – é a base para identificação das oportunidades de implementação da ecoeficiência na organização, pois endereça a melhoria contínua de práticas, procedimentos, processos e recursos utilizados na gestão ambiental.

Na sua proposição de síntese para o conceito de ecoeficiência, van Berkel concorda com a proposta do WBCSD e detalha as sete dimensões aplicáveis na sua implementação:

  • Redução da intensidade de uso de materiais em produtos e serviços – quanto menos utilizarmos materiais e recursos naturais, contribuiremos menos com a geração de resíduos durante o ciclo de vida e estimularemos a reciclagem e o reúso;
  • Decréscimo na intensidade de utilização de energia no processo – a produção, distribuição e uso da energia geram poluição e podem contribuir para as mudanças climáticas;
  • Diminuição do emprego de substâncias tóxicas – uso de substitutos menos danosos e de mais fácil absorção pelo meio ambiente causam benefícios à saúde humana e aos ecossistemas;
  • Reciclagem e reúso de energia e materiais utilizados no processo produtivo – maximização de resultados econômicos e minimização de impactos ambientais;
  • Uso sustentável de recursos renováveis – redução da pressão sobre recursos finitos;
  • Extensão da durabilidade do produto – ampliando a vida útil dos produtos, reduzimos a utilização de energia e recursos naturais e geramos menos resíduos no ciclo de vida do produto;
  • Abordagem de utilização de produto como serviço – oferecendo a possibilidade de que o consumo possa ser satisfeito sem a necessidade de aquisição do bem, bastando ao consumidor contratar um serviço junto ao fabricante, ampliamos a responsabilidade do fornecedor pela reposição e estimulamos reúso de componentes no próximo ciclo de produção, reduzindo uso de energia e recursos naturais e gerando menos resíduos.

Neste ponto de nosso trabalho, gostaríamos de acrescentar novos elementos à diferenciação conceitual que fizemos no tópico 3.3.3 quanto à produção no ciclo de vida do berço ao berço e à ecologia industrial.

Em um artigo em que procura evidenciar o caráter revolucionário de um processo produtivo onde ocorre a circulação de materiais e energia em um ciclo fechado com reaproveitamento integral dos bens produzidos, seja por agentes industriais que integram este ciclo técnico, seja pela própria natureza em seu ciclo orgânico, Hardin Tibbs (TIBBS, H., 2006) propõe que o ciclo de valor (value loop) é uma quebra do paradigma de cadeia de valor (value chain) proposta por Porter. Depreende-se das argumentações do autor que o processo produtivo do berço ao túmulo está indistintamente associado à cadeia de valor, representada por uma sequência linear de atividades que vão desde a extração de matéria-prima, manufatura, transporte, uso, até a disposição final do bem de consumo. Por outro lado, para alcançar o objetivo de reduzir significativamente a utilização de recursos naturais e a geração de resíduos, o ciclo de valor pressupõe que exista uma organização do processo produtivo tal que os agentes que dele participem sejam capazes de utilizar as partes constitutivas dos produtos trocados, evitando sua disposição final através da reutilização dos bens projetados para essa finalidade.

Em nosso estudo, consideramos que somente duas estratégias endereçam plenamente os requisitos para a formação de um ciclo de valor: a produção no ciclo de vida do berço ao berço e a ecologia industrial.

O ciclo de vida do berço ao berço encampa o sentido dado pelos termos em inglês de cradle to cradle life-cycle e cradle to cradle design em nosso trabalho.  Onde o reúso e a reciclagem de resíduos ocorrem de forma significativa, é possível fechar o ciclo de vida do berço ao berço em um processo produtivo executado de forma regenerativa. Para tal, três características devem ser identificadas (McDONOUGH, W. e BRAUNGART, M., 2002):

  • Resíduos reutilizados em novo ciclo de produção, alimentando a entrada dos processos;
  • Uso maciço de energia renovável;
  • Diversidade de agentes industriais atuando no processo de regeneração de resíduos de forma similar às diversas entidades que atuam em um sistema natural de biodegradação.

Cada material de um bem de consumo é projetado para ser reutilizado no ciclo técnico e no ciclo biológico (ecodesign). No primeiro, os componentes são construídos para reaproveitamento em novo processo de manufatura após sua disposição. No segundo ciclo biológico, ocorre a decomposição dos resíduos orgânicos gerados no processo produtivo.

Segundo Nascimento e Venzke (NASCIMENTO, L. F. e VENZKE, C. S., 2006), o ecodesign obedece aos princípios de desmaterialização (prestação de serviço ao invés de vender produto), uso compartilhado ou coletivo, integração de funções (um produto que atende à multifuncionalidade), otimização funcional (eliminação do que não agrega valor), extensão da vida útil (facilitação de reparos e manutenções) e previsão de retorno (projeto para logística reversa).

A Ecologia Industrial, que estende o conceito do ciclo de vida do berço ao berço ao incorporar ao processo produtivo de uma indústria a troca física de resíduos, energia, água, produtos e co-produtos entre várias instalações industriais de forma estruturada, pode ser descrita por suas cinco características distintivas (van BERKEL, 2006a):

  • Interação entre economia e meio ambiente, entendendo que o sistema econômico e o sistema natural que o rodeia devem ser compatíveis;
  • A natureza é o modelo onde se aprende a descobrir novas abordagens de promover a atividade industrial;
  • Balanceamento entre o desenvolvimento dos sistemas industriais respeitando-se as limitações naturais;
  • Visão sistêmica e integrada dos componentes materiais e energéticos da economia industrial, incluindo as trocas com a biosfera e o reconhecimento que o progresso tecnológico é crucial, mas não o único elemento chave no caminho da sustentabilidade;
  • Foco em produtos, processos, serviços e desperdício em escala local, regional e global.

Ecologia industrial em van BERKEL

Figura 4.2 – Ecologia industrial (van BERKEL, 2006a)

Existem três tipos de desenvolvimento de parques na ecologia industrial (van BERKEL, 2006a). Eles podem ser adaptados aos parques industriais existentes ou podem ser criados em locais próprios para a finalidade:

  • Parque ecoindustrial virtual em larga área geográfica – trata-se de um arranjo entre indústrias que fazem parte de ramos de atuação complementares, localizadas em extensa área geográfica, agrupadas pelo objetivo de promover o reaproveitamento de seus resíduos, energia, água, produtos e co-produtos;
  • Parque ecoindustrial misto – concentração regional de uma diversidade de pequenas e médias indústrias sem acoplamento de processos produtivos entre si, agrupadas pelo objetivo de promover o reaproveitamento de seus resíduos, energia, água, produtos e co-produtos;
  • Parque ecoindustrial localmente acoplado – concentração regional de indústrias cujos processos produtivos são fortemente acoplados, agrupadas pelo objetivo de promover o reaproveitamento de seus resíduos, energia, água, produtos e co-produtos;

Após a apresentação dos conceitos de controle da poluição, remediação de área contaminada, reciclagem/reúso, prevenção da poluição, produção mais limpa, ecoeficiência, produção no ciclo de vida do berço ao berço e ecologia industrial, vamos analisar que sugestões de implementações de ações ambientais estratégicas podemos recolher dos guias e padrões de responsabilidade social empresarial. Foram avaliadas para essa finalidade as diretrizes da OECD, a orientação pela ecoeficiência do WBCSD e os princípios e estratégias da ISO 26000:

Ações ambientais estratégicas em OECD, WBCSD e ISO 26000

Tabela 4.2 – Ações ambientais estratégicas em OECD, WBCSD e ISO 26000

Agrupando requisitos com afinidades entre si, fica perceptível que as proposições da ISO 26000 são abrangentes e englobam as propostas de OECD e WBCSD para diretrizes ou estratégias ambientais. Dessa forma, agrupamos premissa de precaução, resposta às emergências e educação/treinamento ambiental sob o conceito de sistema de gestão ambiental para OECD e fizemos o mesmo para os quesitos de responsabilidade ambiental, avaliação de impacto, gerenciamento de risco e princípio da precaução da ISO 26000. Apesar de que a elevação contínua do desempenho ambiental também faça parte do SGA, deixamos este conceito isolado em OECD para permitir compará-lo com as sugestões mais técnicas de melhoria de desempenho contidas em WBCSD e ISO 26000, no que diz respeito à produção mais limpa, ecodesign e cadeia de suprimentos ambientalmente adequada.

Conforme descrito na ISO 26000, as normas da série ISO 14000 (dentre elas, as ISO 14001 e ISO 14040/44) constituem-se nas principais ferramentas de suporte que uma organização necessita para a implantação das diversas etapas de sua estratégia organizada em seu programa de gestão ambiental (ISO 26000, 2010):

Ferramentas de suporte à estratégia de ações ambientais

Tabela 4.3 – Ferramentas de suporte à estratégia de ações ambientais

Após sintetizarmos os conceitos apresentados neste tópico apoiados parcialmente na proposta de René van Berkel (van BERKEL, 2006b) e nas melhores práticas recomendadas pelos guias e padrões de responsabilidade social empresarial para o tema do meio ambiente, elaboramos nossa sugestão para uma estratégia de ações ambientais relevantes aos stakeholders, sendo que a escala de adoção da estratégia representa os níveis crescentes de maturidade ambiental.

Nivel de Maturidade Ambiental

 

 

 

 

 

Tabela 4.4 – Níveis de maturidade da estratégia de ações ambientais

Não descrevemos o nível zero da escala de maturidade ambiental, apesar dele existir, por que ele representa a insensibilidade pelo tema, onde o meio ambiente parece ser um bem público a ser explorado e os riscos, custos e oportunidades da ecoeficiência são considerados desprezíveis, situação na qual se encontra grande parte das empresas.

O primeiro nível de maturidade é a implantação do sistema de gestão ambiental. Na ISO 14001, a política ambiental, a identificação de aspectos e impactos, a avaliação de conformidade com legislações, regulamentos e normas são os elementos chaves para o estabelecimento das metas e para a elaboração dos planos de ações contidos nos programas de gestão ambiental. Estes programas propõem a execução, documentação, comunicação, o acompanhamento e a monitoração dos resultados atingidos pelas ações ambientais relevantes da organização e fornecem os indicadores para orientar a introdução de novas estratégias, permitindo que a organização incremente o valor ambiental agregado em suas ações em busca da ecoeficiência.

O programa ambiental que vai representar o segundo nível de maturidade é aquele que vai estipular as metas de controle da poluição obtidas através do gerenciamento de resíduos sólidos, efluentes líquidos e emissões atmosféricas, iniciando pela adequação do tratamento e disposição de seus resíduos para estar em conformidade com a constante evolução dos padrões preconizados na legislação e regulamentação ambiental. Se houver passivo ambiental representado por poluição acumulada no solo ou em águas subterrâneas, a empresa vai criar também um programa para remediação de áreas contaminadas.

O mapeamento de materiais que possam passar por um ciclo de reciclagem ou reúso e a introdução do reaproveitamento desses materiais no processo produtivo é o terceiro nível de maturidade de nossa estratégia, pois após a implantação do gerenciamento de resíduos, esses rejeitos já estarão sendo valorizados pela organização, seja por conta da economia representada pelos custos de sua segregação, armazenamento, transporte e disposição, seja devido à redução de despesas proporcionada pela sua reutilização.

A prevenção da poluição representa o quarto nível de maturidade, por que após a aplicação de tratamento para redução de descargas de resíduos, o gerenciamento de resíduos e a implantação da reciclagem e do reúso, a empresa poderá dar início às modificações no processo produtivo, redução do uso de substâncias tóxicas, substituição de matéria-prima e melhoria de seus procedimentos operacionais e gerenciais. Para atender um dos requisitos ambientais da ISO 26000, inserimos nesse nível o controle de emissão de gases de efeito estufa e as ações realizadas para adaptação da empresa às mudanças climáticas (veja tópico 3.4.1), tendo em vista que já se considera que as emissões de CO2, NH4 e N2O podem ser consideradas como nocivas aos seres humanos pelo seu impacto nas mudanças climáticas, enquadramos as ações para contê-las como parte do esforço de prevenção da poluição.

No quinto nível de maturidade, para que suas ações evoluam para a produção mais limpa e ecoeficiência, a organização passará a utilizar a análise do ciclo de vida da ISO 14040/14044, que é uma ferramenta fundamental para o conhecimento completo dos impactos ambientais de um produto e vai orientar a substituição de matéria-prima, materiais, fontes de energia, transporte e componentes de fabricação, prevenindo a poluição e conservando recursos naturais, energéticos e materiais. Inicia-se a utilização de ecodesign com foco na utilização do produto como serviço (também conhecido como desmaterialização), no uso compartilhado ou coletivo, na integração de várias funções a um só produto e no projeto  para retorno através da logística reversa, viabilizando a reutilização no processo produtivo. A proteção do ambiente e a restauração de ecossistemas, ações ambientais sugeridas na ISO 26000, foram incluídas nesse nível por acreditarmos que somente nesse estágio, as organizações vão adotar a proteção ambiental de forma voluntária. Se a companhia atuar em alguma área protegida por legislação específica quanto à biodiversidade, esta ação já ocorrerá nos primeiros níveis de maturidade estimulada por um programa de gestão elaborado para atender aos requisitos legais.

A produção baseada no ciclo de vida do berço ao berço, que é o sexto nível de maturidade, amplia a utilização do ecodesign utilizando o conceito do biomimetismo (inspiração nos processos naturais que ocorrem na cadeia alimentar), ao projetar os componentes do produto para que participem do ciclo técnico e biológico, possibilitando sua reutilização por diversos agentes integrantes de seu ciclo de vida ou viabilizando sua decomposição orgânica na natureza. Por esse motivo, colocamos nesse nível de maturidade as características do ecodesign relativas à otimização funcional e extensão da durabilidade dos produtos, pois apesar de já ser um preceito no nível anterior (ecoeficiência), acreditamos que essas características só se realizam em sua plenitude ao incorporarmos a inspiração no modelo da natureza. A orientação pelo uso de energia renovável torna-se onipresente no processo produtivo e a abordagem do biomimetismo começa a produzir produtos revolucionários.

O último nível de maturidade é representado pela ecologia industrial e pela inserção da organização em uma simbiose com diversas indústrias, propiciando significativas vantagens competitivas representadas pelas trocas de materiais, energia, água, resíduos e co-produtos entre elas. Essas indústrias podem se organizar de acordo com o grau de proximidade geográfica ou com a complementaridade de suas operações, gerando os parques ecoindustriais virtuais em larga área geográfica (forte complementaridade e fraca proximidade), parque ecoindustrial misto com diversidade de pequenas e médias empresas (fraca complementaridade e forte proximidade) ou o parque ecoindustrial localmente acoplado (forte complementaridade e forte proximidade).

Oferecendo uma abordagem alternativa a que aqui propusemos, a Pollution Probe (POLLUTION PROBE, 2004) fez um estudo de caso com doze empresas de grande porte no Canadá e recolheu diversos depoimentos sobre os benefícios obtidos na implantação de estratégias ambientais (veja esses benefícios no tópico 3.3.5). Em um trabalho de dois anos, foi realizada a avaliação de 17 diferentes ferramentas de sustentabilidade ambiental:

  • Integrated Product Policy (IPP) – Política integrada de produto;
  • Life Cycle Assessment (LCA) – Análise do ciclo de vida;
  • Life Cycle Management (LCM) – Gerenciamento do ciclo de vida;
  • Pollution Prevention (PP) – Prevenção da poluição;
  • Green Building Design – Projeto de construção verde (LEED);
  • Corporate Environmental Reporting – Relatório de sustentabilidade GRI;
  • Environmental Risk Assessment – Avaliação de risco ambiental;
  • Supply Chain Management – Gerenciamento da cadeia de suprimento;
  • Extended Producer Responsibility (EPR) – Responsabilidade estendida do produtor;
  • Green Procurement – Compra sustentável;
  • Industry Ecology (IE) – Ecologia industrial;
  • Design for Environment (DfE) – Ecodesign;
  • Eco-efficiency (EE) – Ecoeficiência;
  • Stakeholder Engagement – Engajamento de partes interessadas;
  • Environmental Impact Assessment (EIA) – Avaliação de impacto ambiental;
  • Environmental or Eco-labelling – Rotulagem ambiental;
  • Environmental Management Systems (EMS) – Sistema de gestão ambiental.

A empresa classificou-as em quatro grandes grupos: ferramentas gerenciais ou organizacionais, ferramentas focadas no produto, ferramentas operacionais ou de gerenciamento de riscos e ferramentas de comunicação e marketing ambiental:

Ferramentas ambientais POLLUTION PROBE

Figura 4.3 – Quadro de ferramentas ambientais (POLLUTION PROBE, 2004)

A aplicação das estratégias de ações ambientais vai produzir os temas relevantes que farão parte do engajamento dos públicos de relacionamento. Agora que definimos as principais mensagens que vão constituir a comunicação ambiental, vamos estudar as principais características propostas pelos guias e padrões de RSE para que se estabeleça o diálogo com os stakeholders.

* A lista de livros e links citados nos posts é encontrada ao fim de cada página desse blog.