Em seu estudo inspirador de 1976 para a Comissão Européia, Walter Stahel (STAHEL, W., 1976) mostrou que ¾ da energia utilizada na indústria é gasta na extração de recursos naturais, na mineração ou na produção de material básico como ferro e cimento, enquanto apenas 25% da energia é gasta na transformação desses materiais em bens de consumo. Além disso, três vezes mais trabalho é utilizado na fabricação destes bens com mais alto valor agregado do que na geração daqueles materiais básicos. Em resumo, se a atividade econômica estiver calcada na geração de novos produtos a partir da reutilização e do reprocessamento de bens descartados, a economia utilizará menos energia e criará mais postos de trabalho.

O modelo proposto por Stahel gerou um novo conceito denominado ciclo de produção do berço ao berço. Em contraposição ao processo linear de produção (berço ao túmulo), com as etapas de extração e processamento da matéria-prima, transporte até a fábrica de bens de consumo, manufatura, logística de distribuição até o consumidor, consumo e disposição no lixo, este novo ciclo tenta mimetizar os processos da cadeia alimentar na natureza (biomimetismo, em tradução livre para biomimicry).

A aplicação destes princípios à indústria cria um fluxo cíclico de energia e material que pode eliminar a geração de resíduos inorgânicos. Cada material de um bem de consumo é projetado para ser reutilizado em um ciclo técnico ou em um ciclo biológico. No ciclo técnico, os materiais não são renováveis e por isso são projetados para reaproveitamento de suas partes em novo processo de manufatura após sua utilização pelo consumidor. Idealmente, a energia renovável é a fonte que move todas as etapas de produção e distribuição. O ciclo biológico incorpora a decomposição dos resíduos orgânicos gerados no processo produtivo permitindo que eles sejam reaproveitados pela natureza (McDONOUGH, W. e BRAUNGART, M., 2003).

Processo berço ao berço de produção de caixa de papelão (McDONOUGH, W. e BRAUNGART, M., 2003)

Figura 3.8 – Processo berço ao berço de produção de caixa de papelão (McDONOUGH, W. e BRAUNGART, M., 2003)

O ciclo de produção do berço ao berço pode provocar profundas alterações no relacionamento entre produtor e consumidor. Dada a extensão da responsabilidade do produtor por todo o ciclo dos bens de consumo e considerando que os produtos tenham sido projetados para reutilização, será interessante para fabricantes e consumidores que os produtos sejam consumidos como serviços através de pagamento periódico por sua utilização. O benefício para os consumidores residirá no fato de que eles não precisam pagar pela propriedade do bem, podendo trocá-lo por outro com mais tecnologia embarcada com uma simples revisão de seu contrato de serviços e reajuste de uma mensalidade. Para os produtores, esta será uma excelente forma de estimular a fidelidade do consumidor à marca e de garantir insumos ao seu processo produtivo a menor custo, pois não podemos esquecer que o consumidor está devolvendo um bem que contem partes reutilizáveis na fabricação do mesmo ou de outro produto de sua linha de montagem.

A ecologia industrial (vejam detalhes no tópico 4) estende o conceito do ciclo de vida do berço ao berço ao incorporar ao processo produtivo de uma indústria a troca física de resíduos, energia, água, produtos e co-produtos entre várias instalações industriais situadas em uma localidade próxima. Um exemplo incipiente desta simbiose industrial pode ser encontrado em Kalundborg, na Dinamarca, onde uma central elétrica (Asnaes) movida à carvão mineral fornece vapor para uma refinaria (Statoil), recebendo em troca gás combustível, água resfriada e água residual do processo produtivo. A refinaria oferece seu co-produto enxofre para uma fábrica de ácido sulfúrico (Kemira). Outra manufatura que se beneficia desse arranjo é uma instalação que produz placas de gesso (Gyproc) que obtém seu principal insumo a partir da lama de tratamento de efluente da central elétrica. A indústria farmacêutica (Novo Nordisk), que é abastecida pelo vapor da central elétrica, oferece seu lodo de esgoto tratado como fertilizante para as fazendas. As cinzas da central elétrica são utilizadas na produção de cimento da região (van BERKEL, R., 2006a).

Ecologia industrial em Kalundborg, Dinamarca (van BERKEL, 2006a)

Figura 3.9 – Ecologia industrial em Kalundborg, Dinamarca (van BERKEL, 2006a)

As inovações tecnológicas que vão provocar uma disrupção no modelo industrial vigente serão patrocinadas por este novo paradigma de processo produtivo. Elas serão motivadas pelas vantagens competitivas obtidas na colaboração entre firmas da ecologia industrial, ou por intermédio das novas oportunidades de negócio e/ou redução de custos inerentes à busca pela ecoeficiência, bem como pela preferência dos consumidores conscientes por produtos projetados para reutilização no ciclo de produção do berço ao berço.

Alguns autores acreditam que aquela abordagem disruptiva no enfrentamento dos desafios ambientais fará surgir um novo capitalismo. O Capitalismo Natural apregoa que o acréscimo radical da produtividade na utilização de recursos naturais, energia, materiais e pessoas vai gerar um número crescente de soluções tecnológicas lucrativas, tornando viável a implantação de medidas verdadeiramente sustentáveis. Além disso, os processos inovadores, cuja criação estará apoiada em técnicas como a análise do ciclo de vida (detalhado no tópico 3.4.3), a ecologia industrial e o biomimetismo, vão forjar inovações tecnológicas capazes de gerar qualidade superior de produtos e serviços (LOVINS, L. H., 2006).

Ondas de Inovação - Capitalismo Natural (LOVINS, L. H., 2006)

Figura 3.10 – Ondas de Inovação (LOVINS, L. H., 2006)

Outros tipos de tecnologia ambiental, como as técnicas de controle da poluição, gerenciamento de resíduos, reciclagem e remediação de áreas contaminadas, não têm o poder de provocar rupturas no atual modelo industrial, pois são consideradas tecnologias de fim de tubo, ou seja, atuam depois que a poluição foi gerada. No entanto, elas representam uma etapa mandatória de atualização tecnológica de qualquer organização a caminho da responsabilidade social empresarial, pois é necessário estar em conformidade com a constante evolução dos padrões preconizados na legislação e regulamentação ambiental.

A geração de energia renovável é outro campo de embate entre velhas e novas tecnologias. O World Economic Forum (WEF), uma fundação suíça sem fins lucrativos, reúne anualmente os principais líderes de governo, empresários e cientistas em Davos para discutir as questões econômicas mais relevantes. Em sua edição de 2008, o WEF recebeu o mandato de seus stakeholders para criar o Green Investing Project para apresentar opções de investimento em tecnologias verdes. Em sua edição de 2010, foram apresentados como preferenciais os investimentos em dez setores de energia renovável, oito para geração de energia elétrica e dois de biocombustíveis líquidos: Energia Eólica no continente e no mar, energia solar fotovoltaica, energia termal solar, transformação de resíduo em energia, energia geotermal, pequenas centrais hidrelétricas, álcool de cana-de-açúcar e biocombustível de celulose ou de algas. Segundo este relatório, será aplicado anualmente o montante de US$500 bilhões em energia renovável a partir de 2030, majoritariamente em energia solar, eólica e biocombustíveis (WEF, 2010).

Investimentos em Energia Limpa (WEF, 2010)

Figura 3.11 – Investimentos em Energia Limpa (WEF, 2010)

O estudo do WEF ainda identifica o estágio individual de maturidade das principais tecnologias para geração de energia renovável, associando-as com prováveis fontes de financiamento.  Os investimentos serão relevantes para permitir que se ultrapassem as barreiras que ainda impedem a difusão das soluções tecnológicas maduras ou mesmo para patrocinar a evolução das tecnologias ainda incipientes.

Grau de Maturidade das Tecnologias de Energia Limpa (WEF, 2010)

Figura 3.12 – Grau de Maturidade das Tecnologias de Energia Limpa (WEF, 2010)

Não podemos ignorar que, por outro lado, a indústria do petróleo e dos combustíveis fósseis recebe subsídios nos países produtores para levantar impedimentos à difusão das novas tecnologias. Esse comportamento típico do capitalismo, promovendo apostas nos vários cavalos que disputam a corrida até que o vencedor leve tudo, pode atrasar a vitória definitiva da energia renovável, mas hoje já deixa disponível um montante elevado de recursos para esta nova aposta. A efervescência deste ambiente mostra como as inovações tecnológicas podem derrubar fortíssimos competidores estabelecidos assim que adotadas em uma escala adequada.

 

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